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20 de Julho de 2026
Foto: Magnific
O câncer de cabeça e pescoço, historicamente mais associado a homens acima dos 60 anos, fumantes e consumidores frequentes de álcool, vem apresentando uma mudança preocupante no perfil dos pacientes. O aumento dos casos de câncer de orofaringe relacionados ao HPV tem chamado a atenção de especialistas por atingir também pessoas mais jovens, muitas vezes sem histórico de tabagismo ou alcoolismo.
O alerta ganha força no Dia Mundial do Câncer de Cabeça e Pescoço, lembrado em 27 de julho. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), esse grupo de tumores representa cerca de 5% de todos os cânceres malignos no mundo. No Brasil, o Instituto Nacional de Câncer (Inca) estima cerca de 39 mil novos casos por ano de cânceres de cavidade oral, laringe e tireoide, alguns dos principais tumores desse grupo.
O câncer de cabeça e pescoço engloba tumores que costumam surgir na boca, língua, garganta, laringe, faringe, cavidade nasal, seios da face e glândulas salivares. Por acometer regiões envolvidas em funções essenciais, a doença compromete a fala, a mastigação, a deglutição e a respiração.
“Quando diagnosticados em fase inicial, as chances de cura são elevadas. No entanto, se o diagnóstico é tardio, o câncer pode invadir estruturas vizinhas e se disseminar para linfonodos do pescoço e outros órgãos”, explica Dr. Jean Coutinho, médico oncologista do CEJAM.
HPV mudou parte do cenário da doença
Entre as transformações mais relevantes está o crescimento dos tumores de orofaringe associados ao HPV, especialmente ao subtipo HPV-16. De acordo com o Inca, cerca de 70% dos cânceres de orofaringe estão relacionados ao vírus.
A transmissão do HPV ocorre principalmente pelo contato íntimo entre mucosas, incluindo o sexo oral. Mais raramente, também ocorre por transmissão da mãe para o bebê durante o parto.
O HPV tem afinidade pelas células da pele e das mucosas, como as da região genital e da boca e garganta. Após a infecção, o vírus pode permanecer silencioso por muitos anos. Na maioria das pessoas, ele é eliminado naturalmente pelo sistema imunológico em até dois anos. Porém, quando a infecção persiste, principalmente pelos tipos de alto risco, como o HPV-16, pode causar alterações nas células que aumentam o risco de câncer em diferentes regiões do corpo, incluindo a orofaringe”, afirma Dr. Danilo Galvão, médico infectologista da Santa Casa de São Roque, unidade da Prefeitura do município gerenciada pelo CEJAM.
A maioria das pessoas sexualmente ativas terá contato com o HPV ao longo da vida, conforme a OMS. Isso, no entanto, não significa que toda infecção evoluirá para câncer.
“O câncer costuma ser resultado de uma infecção persistente ao longo de muitos anos, e não de uma infecção recente. O risco aumenta quando o vírus permanece por muito tempo nas células, principalmente os tipos de alto risco. Isso também depende de fatores como resposta do sistema imunológico, consumo excessivo de álcool ou cigarro, e características individuais”, pontua.
Sem estigma e com informação
A associação entre HPV e câncer de orofaringe ainda é pouco conhecida pela população. Para o oncologista Dr. Jean, isso ocorre porque muitas pessoas não sabem que alguns vírus e bactérias contribuem para o desenvolvimento de tumores.
Na avaliação do Dr. Danilo Galvão, ainda há equívocos frequentes sobre o tema. “Muita gente acredita que o HPV só está relacionado ao câncer de colo do útero ou que apenas pessoas com muitos parceiros adquirem a infecção. Na verdade, basta uma única exposição para ocorrer a transmissão, e muitas pessoas entram em contato com o vírus sem apresentar qualquer sintoma. O foco deve ser sempre a informação, a vacinação e o diagnóstico precoce, nunca a estigmatização”, declara.
Apesar da mudança no perfil dos pacientes, tabaco e álcool são fatores de risco importantes para os cânceres de cabeça e pescoço. A diferença é que, atualmente, os tumores associados ao HPV exigem uma ampliação do olhar preventivo.
“Tradicionalmente, esse câncer era mais frequente em homens acima dos 60 anos, fumantes e consumidores de álcool. Hoje, observamos um número crescente de pacientes mais jovens, muitas vezes sem histórico de tabagismo ou etilismo. Isso não significa que tabaco e álcool deixaram de ser importantes. Eles continuam sendo os principais fatores para cânceres de cabeça e pescoço”, destaca Dr. Coutinho.
Vacinação deve incluir meninos e meninas
O infectologista orienta que vacinar meninos e meninas é uma estratégia fundamental no novo cenário epidemiológico. “Ambos podem desenvolver doenças relacionadas ao HPV e, ao serem imunizados, contribuem para interromper a circulação do vírus na população. Com isso, reduzimos não apenas os casos de câncer de colo do útero, mas também de garganta, ânus, pênis e outras regiões.”
A vacina contra o HPV é oferecida gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e protege contra os principais tipos do vírus associados a diferentes cânceres, como colo do útero, ânus, pênis e orofaringe, além de prevenir verrugas genitais.
“A vacina é extremamente eficaz na prevenção das infecções pelos principais tipos de HPV responsáveis pela maioria dos cânceres relacionados ao vírus. Ela oferece a melhor proteção quando aplicada antes do primeiro contato com o vírus”, afirma.
Entre os principais obstáculos à ampliação da cobertura vacinal estão a desinformação e a falsa ideia de que a vacina está relacionada apenas à saúde feminina ou que estimula o início da vida sexual.
“Na realidade, vacinar meninos e meninas antes do início da vida sexual é a forma mais eficaz de reduzir a circulação do vírus e prevenir diferentes tipos de cânceres. A vacina é segura e não há evidências de que a prevenção influencie o comportamento sexual precocemente”, completa o oncologista.
O uso do preservativo é recomendado, mas não elimina totalmente o risco de transmissão. “O preservativo reduz o risco, mas não oferece proteção completa, já que o vírus pode estar presente em áreas não cobertas”, reitera Dr. Galvão.
Sintomas persistentes exigem avaliação
Os sinais iniciais do câncer de cabeça e pescoço são discretos e até mesmo confundidos com infecções ou inflamações comuns. Isso contribui para atrasos no diagnóstico.
Entre os principais sintomas de alerta estão feridas na boca que não cicatrizam após duas semanas, rouquidão persistente, dor ou dificuldade para engolir, sensação de algo preso na garganta, caroços no pescoço e sangramentos na boca sem causa aparente.
“Um dos mitos mais perigosos é achar que, se não dói, não é grave. Muitos tumores iniciais são completamente indolores. Outra ideia equivocada é acreditar que uma afta demora meses para cicatrizar. Qualquer lesão persistente por mais de duas semanas deve ser avaliada”, alerta o oncologista.
Os tumores associados ao HPV, em geral, apresentam melhor resposta à radioterapia, à quimioterapia e aos tratamentos combinados, quando comparados aos tumores relacionados ao tabagismo. Ainda assim, isso não reduz a gravidade da doença.
“Pacientes com câncer de orofaringe HPV-positivo geralmente apresentam maiores taxas de cura e sobrevida. Entretanto, isso não significa que sejam tumores menos graves. Eles exigem tratamento especializado e acompanhamento rigoroso, pois podem se espalhar pelo organismo e levar o paciente à morte”, ressalta Dr. Coutinho.
Além da vacinação contra o HPV, as principais medidas de prevenção incluem não fumar, evitar o consumo excessivo de bebidas alcoólicas, manter boa higiene bucal, praticar sexo seguro e realizar acompanhamento regular de saúde.
“O câncer de cabeça e pescoço não é mais uma doença exclusiva de fumantes ou idosos. Qualquer pessoa deve estar atenta aos sinais persistentes e procurar avaliação médica quando notar alterações que não melhoram. O diagnóstico nas fases iniciais continua sendo o fator que mais aumenta as chances de cura e reduz a necessidade de tratamentos agressivos”, finaliza.
Fonte: Comunicação, Marketing e Relacionamento
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